sexta-feira, 4 de maio de 2012

Nem só de caviar vive o homem

Meio largado entre tantos outros livros, "Nem só de caviar vive o homem" passou anos a fio sem despertar meu interesse. Eis que um belo dia, enquanto pesquisava receitas na internet, encontrei algumas informações sobre ele e não resisti. O resgatei da estante e não poderia imaginar o que me esperava em suas páginas.

Um delicioso best seller escrito nos anos 60 por Johannes Mario Simmel. Livremente inspirado nas aventuras reais de Thomas Lieven, um pacato banqueiro bon vivant, que meio sem querer acaba envolvido com o serviço secreto de vários países durante a 2ª Guerra. Mas a grande sacada do livro é mostrar a paixão por gastronomia deste agente. Paixão que sobrevive aos maus bocados de uma guerra e mais do que isso, o ajudam a executar seus planos (por mais mirabolantes que pareçam).

"Nem só de caviar vive o homem" é na verdade um grande livro de receitas, com 29 menus completos a serem devidamente copiados. Sim, todas as receitas estão lá, e agora também digitalizadas e guardadas junto com os livros de culinária aqui de casa.

Não vou dizer que são detalhadas, na verdade são escritas de forma tão corrida quanto à dinâmica vida dos agentes secretos, mas dá para entender e reproduzir cada uma delas sem grandes dificuldades. Receitas das mais diversas partes do mundo, e todas parecem ter a manteiga como ponto comum. Haja manteiga, mas tendo em vista que é uma história passada na década de 40 e reproduzida nos anos 60 nada mais normal do que essa exagerada dose de gordura saturada. Enfim, um livro para saborear cada página bem devagar e redescobrir os indiscutíveis poderes de uma boa refeição.

Poderes estes que ninguém por aqui duvida e justo por isso corremos à cozinha preparar algumas das receitas de Thomas Lieven.

de thomas lieven para a mesa

O cardápio escolhido:

Entrada: torradas com cogumelo - porque a cozinha húngara é boa conselheira
Prato principal: ragout de carne à espanhola - almoço picante para estourar grandes planos
Sobremesa: pêssegos flambé - só porque todos temos um pouco de piromania por aqui

A receita das torradas é bem simples. Em uma frigideira derreta duas colheres (sopa) de manteiga (olha ela aí), acrescente cogumelos limpos e picados, utilizamos paris e shimeji. Um pouco de sal, pimenta do reino e  já fora do fogo um pouco de creme de leite fresco para dar cremosidade. Torre então, fatias de pão de forma com manteiga (olha ela aí de novo).

cogumelos, sempre bem vindos

Sirva os cogumelos sobre as torradas ainda quentes e salpique um pouco de salsa picada (usamos a desidratada para variar um pouco).

Sinceramente eu trocaria o pão de forma pelo italiano sem pensar duas vezes. Mas o sabor é incrível. Cogumelos com creme de leite estão entrando para a minha lista de combinações sem chance de erro.

Sem dúvida uma daquelas entradas que dá vontade de aumentar a receita e cancelar o prato principal

torradas de cogumelos

Como não aceitamos cancelamentos, fomos direto para o ragu de carne à espanhola. Uma receita bem diferente do que estamos habituados a chamar de ragu. Primeiro deve-se cortar finas fatias de filé mignon e batê-las até que fiquem bem fininhas (quase um carpaccio), esses filés devem ser temperados com sal, pimenta do reino e mostarda dijon (usamos uma com ervas), reserve.

Corte finas fatias de batatas e reserve também. Mais algumas finas fatias, agora de cebola, em manteiga (não poderia faltar) frite as cebolas até que murchem. Reserve.

Em uma forma de pudim monte as camadas. Comece com batatas, sobre as batatas coloque pequenos pedaços de manteiga (eu avisei), uma camada de filé, uma camada de cebolas e siga nesta sequência até finalizar com batatas e manteiga (imprescindível).

Faça uma mistura com meia xícara de vinho tinto, meia xícara de creme de leite fresco e meia xícara de caldo de carne. Despeje este molho sobre os demais ingredientes, cubra a forma com alumínio leve ao forno em banho maria por 1h30.

ragu de carne à espanhola

Uma refeição completa. Carboidrato, proteína e muito sabor misturados de forma surpreendente. A carne fica tão macia que desmancha-se na boca e a mostarda é o que realmente faz toda a diferença no tempero.

Claro que não poderíamos deixar um almoço destes sem uma boa harmonização. Desta vez optamos por um vinho já conhecido e aprovado por aqui, o pinotage Obikwa. Infelizmente, talvez por ser de 2009 e não ser um vinho de guarda ou por mal armazenamento (hipótese mais próvável), ele estava um pouco mais ácido do que deveria estar. De qualquer maneira não comprometeu o brilho do que viria a seguir.

harmonizando

Pêssegos flambés. Sobremesas flambadas são sempre um belo espetáculo, ou deveriam ser. Primeiro a receita.

Escorra bem os pêssegos em calda e reserve. Faça uma calda clara e acrescente um pouco de conhaque e um pouco de cointreau. Na hora de servir coloque no prato os pêssegos, a calda e um pouco mais de conhaque para flambar. Sirva com amêndoas torradas e uma bola de sorvete de creme.

prontos para flambar

Confesso que tivemos grandes dificuldades em conseguir tacar fogo nos pêssegos. Talvez aproveitar a calda da lata tenha prejudicado nossa calorosa performance, não sei. Sei que tinha sorvete, amêndoas e açúcar, logo, nada a reclamar desta delícia gelada.

pessegos flambés com sorvete, porque tudo com sorvete fica ainda melhor
Almoço simplesmente fantástico, nada como ter boas inspirações. Realmente após refeições como esta fica fácil acreditar em toda a ação do livro.

Quanto ao caviar... nunca vi nem comi, eu só ouço falar, mas essa já é outra história, que pode muito bem acabar em samba.

8 comentários:

  1. Fotos lindas!!!

    Tacar fogo nos pêssegos foi ótimo, e põe mais conhaque aí - hahaha.

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    1. no meu, tira a calda e deixa só o conhaque :P

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  2. Não entendi as amêndoas aleatórias jogadas por cima dos pêssegos flambados. Até onde me lembro, não tinham amêndoas nessa receita do Thomas.

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  3. Olá caro anônimo, estou com o livro em mãos aberto na pg 391 onde posso ler a receita dos pêssegos flambados, e posso lhe garantir que a calda é feita com açúcar, manteiga e amêndoas picadas.
    Ah! Obrigada, é sempre ótimo ter uma desculpa para folhear este livro relendo pequenos trechos... ;)

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    1. [Vou me identificar como ZeVampiro se não se importar] Kra, que interessante (sem ironias), no meu livro nao ta falando de amendoas, serio, legal ver como o pessoal me tira um pedaco da receita ao publicar uma nova versao do livro... Peguei um exemplar antigo do Nem so de caviar, do meu pai, que tinham as amendoas... Bom eu ia mudar de assunto, eu vi q vc fez pao de queijo, no teu ultimo post, eu pessoalmente amo o pao da casa do pao de queijo... Faz alguns anos que tento achar uma receita bem parecida com a deles, eu sei que tem 30% da massa em queijo, e que eles usam bastante queijo minas. Agora vem a pergunta: Vc tem ideia de alguma massa tao boa quanto a da Casa do Pão de Queijo? PS: Vim cair no teu blog pesquisando sobre o Thomas Lieven, pra ver se eu descubro quemera o kra, algo a mais da historia... e coincidentemente eu tinha lido a receita dos pessegos um dia antes de acessar teu blog... E como se ja nao bastasse sou formado em gastro... hehehe... Muito bom teu blog... Gostaria muito que continuasse se possivel a postar, pra eu poder continuar lendo... Abraços. ZeVampiro

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  4. ZeVampiro? Sério?

    Essas coisas infelizmente podem acontecer, de qualquer forma, como sempre falo aqui no blog, todas as receitas são só uma base em cima da qual temos total liberdade de criar... Dar nosso toque especial é sempre fundamental.

    Massa de pão de queijo... confesso que nenhuma das que testei ficaram realmente boas, não sei se por culpa minha (de não saber identificar o ponto) ou por não serem receitas de qualidade mesmo, mas costumam ficar bem pesadonas... pode deixar que se eu descobrir, posto por aqui... agora, se vc descobrir, me conta :)

    Qto à volta do blog... ele volta... um dia volta... acredito q em breve, mas sem nenhuma previsão de qto tempo isto significa :)

    De qq forma estou sempre por aqui ou pelo face disposta a trocar umas receitinhas ;)

    Abraços

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  5. Li este livro a cerca de 40 anos atrás e na época, adolescente, foi muito interessante. Mas me recordo que nas receitas constavam vários componentes que, à época, não tínhamos disponível aqui - país fechado! Agora procuro o livro para comprar mas encontra-se esgotado. Vamos aos sebos !!
    Parabéns por resgatar estas preciosidades.

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  6. olá!
    a paixão pela literatura é tão grande quanto pela gastronomia!

    Realmente, alguns ingredientes citados não eram fáceis de achar por aqui até bem recentemente, outras receitas são um tanto polêmicas (como a sopa de tartaruga). Mas este livro é um verdadeiro convite à aventura (no meu caso, à aventura gastronômica... hehehe).

    Vc falou em sebos, conhece a estante virtual? É um site que reúne vários sebos e facilita a busca.

    Boa sorte na procura e obrigada :)

    http://www.estantevirtual.com.br/busca?q=nem+s%F3+de+caviar+vive+o+homem

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